segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Parte 4

           Saindo da padaria, pôde avistar aquele pequeno pedacinho de tecido vermelho virando a esquina. Dirigiu-se naquela direção, o mais rápido que podia apesar de suas limitações físicas, cautelosamente, certificando-se de que ninguém reparasse em sua figura. Não era tarefa difícil, todos tomavam-no como pedinte, devido as suas roupas desgastadas, barba comprida e aparência suja. Todos apenas ignoravam-no e desviavam o olhar sempre que possível. A única coisa bela em Dimitri eram seus cabelos. Castanhos e lisos que caiam-lhe pelos ombros, embora hoje sempre emaranhados e sujos. Perdera seu asseio no mesmo instante que perdera ela. O ódio da lembrança fez com que ele pudesse caminhar ainda mais rápido e logo ficasse a apenas alguns metros de distancia da garota. Tocou-lhe o ombro com leveza, apesar de seus olhos entregarem a voracidade de seus pensamentos. A pequena olhou-o e recuou um passo.
          - Não tema querida, sua mamãe pediu para que eu a acompanhasse até onde ela está agora. Sua mamãe tem uma surpresa pra você!
          - Uma surpresa? Que tipo de surpresa? Mamãe está em casa. - Respondeu desconfiada.
         - Não querida, sua mamãe pediu para o titio buscar você. Ela disse que eu não devia te contar, mas eu vou só por que você é uma menina linda tá bom? Ela comprou um presente enorme pra você, que nem cabe na sua casa, por isso você tem que vir com o titio com uma carinha bem alegre pra gente poder chegar até lá. 
          - Jura? Um presente bem grande? - Perguntou a pequena com brilho nos olhos.
          - Sim querida, enorme. Mas você tem que vir comigo, tá bom?
          - Tá bom tio.
          E seguiram lado a lado, de volta pela rua enlameada.

Parte 3

       Seus passos pesados marcavam a lama que ainda cobria a rua estreita de sua casa. Deixou suas pegadas então até a padaria, lá, deixou-as também no chão de azulejos recentemente limpo, fazendo com que a jovem que postava-se atrás do balcão de madeira descascada torcesse o nariz. 
       - Café. - Dissera ele, fazendo um forte esforço para que sua cabeça não caísse de seu pescoço e rolasse até o rio, de tão pesada que estava.
          - Puro? Com leite?
          - Puro.
         Depois de apanhar seu café, sorveu o líquido com o cuidado de não se queimar. A luz do dia irritava seus olhos sensíveis e o barulho que começava a aumentar devido a circulação de pessoas nas ruas também fazia com que sua cabeça latejasse. Só queria um descanso, não era pedir demais. Foi então que uma pequena garota por volta de sete anos, de pele negra, cabelos castanhos cuidadosamente atados em uma trança e vestido vermelho com joaninhas nos botões adentrou o local e caminhou até o balcão, onde pediu três pães, pagou e saiu em seguida. Dimitri sorriu, expondo seus dentes pútridos. Estava ali o seu merecido descanso. Terminou o café de um único gole, deixou o dinheiro sobre o balcão e saiu dali.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Parte 2

            A noite fora longa e o sofrimento acompanhou-o, assim como a chuva. Depois de muitos conhaques e o resto de charuto ser reacendido e fumado até o fim, o velho Dimitri afundou-se em sua barba encharcada de álcool e caiu em um breve cochilo que lhe proporcionou mais um de seus constantes pesadelos. Acordou em um sobressalto e levantou-se, ato o qual fez com que suas articulações doessem de forma quase insuportável, levando-o ao chão. Não importava na verdade. Tudo o que via era o chão balançar em baixo dele, e seus velhos fantasmas continuavam o acompanhando em mais uma dança. 

          Pling, pling, pling. Despertou. Uma nova goteira pingava em sua bochecha e escorria até sua nuca, dando uma sensação muito desagradável. Não se mexeu, apenas parou para pensar no que havia acontecido. Estava em casa, isso era claro. Claro como o dia que havia nascido lá fora. E estava vivo, ainda e infelizmente. Sua boca estava seca, sua língua grudada no céu da boca. Mexeu-se por fim, apenas alguns centímetros, de modo que as gotas de água vindas do teto pingassem em sua língua ressequida. Mas que inferno, um novo dia de novo.

Parte 1

         O cheiro de suor impregnava o ambiente em conjunto com a fumaça de um charuto barato comprado a poucas quadras dali. Mancando vinha ele, com sua espessa barba amarela cheia de nós, vestindo uma camisa xadrez e um macacão jeans muito gasto. Apesar de não passar muito dos cinquenta anos, tinha um andar muito pesado, o que enganava bem, já que quase ninguém imaginaria que tal homem pudesse ser tão forte como na realidade era. Seus dentes pútridos e amarelados seguravam o charuto entre seus lábios finos. Sentou-se numa cadeira de madeira antiga que havia ganho de sua mãe, muito antes desta falecer. A cadeira, há anos atrás tinha um belo estofamento de veludo azul, com pequenos detalhes dourados, hoje estes estavam há muito desgastados e desbotados. Encontrava-se no canto de sua pequena sala, que se iluminava em intervalos praticamente constantes por conta raios que ribombavam do lado de fora. Incessantemente, a chuva martelava nas janelas e atravessava alguns buracos no telhado, criando goteiras por toda a casa. As paredes de madeira pareciam ganhar vida, estalando enquanto inchavam lentamente pela umidade. Mesmo com as articulações doendo desgraçadamente ele se recusava a tomar qualquer remédio. Qualquer remédio que não fosse seu conhaque, claro. Levantou-se vagarosamente e caminhou até a mesinha no outro canto do cômodo, onde sempre estava uma garrafa e um copo mal lavado que viera de brinde com alguma destas garrafas que comprou. Serviu-se de uma boa dose e voltou a se sentar, não sem antes dar uma olhadela no porta retratos poeirento que mantinha ao lado da cadeira. Uma forte onda de tristeza o obrigou a sentar-se e tomar um longo trago de sua bebida, reprimindo as lágrimas que timidamente tentavam tomar lugar em sua face. Na fotografia, seu único amor em toda uma vida. Apenas na fotografia e em seus sonhos, ela ainda vivia. Apagou o charuto no braço da cadeira e jogou-o em um canto qualquer. Como pudera tal coisa acontecer? Nunca se conformaria, isso era certo.